Caderno de notas, 25/3/06
1.
Jardins, em frente a Maksoud Plaza. Uma garota passa, peitos empinados, corpo jogado para tras, como se o minúsculo cachorro que leva à coleira a puxasse com força incomum. Será que já estou em solo estadunidense? Olho de lado e lá estão o Digão, o Alex e a Sílvia. Not yet.
O Tatu me recomendou que desse uma cuspidinha de cima da estátua da liberdade. O Nilsão me pediu para achar uns vinis do Miles e do Zappa. A Violeta me pediu pra mandar fotos e cartas. Na mochila, 24 cds do Mestre Jogo de Dentro e outros tantos de mp3, PDF... É sério, estou indo trabalhar.
Digão e Alex se vão, tomo um café com a Silvinha na padaria fresca da esquina do Maksoud. Chove em São Paulo. Ela me dá uma encomenda pro Hidalgo e eu dou a ela umas coisas pra levar pra Campinas. Entro no ônibus, fugindo da chuva. Agora é comigo. O centro está alagando, mas ainda tenho mais de três horas para chegar em Guarulhos. Mas nunca se subestima o trânsito em São Paulo, the rotten apple. Ainda mais depois de um puco de terrorismo materno.
Nova York nunca foi um lugar que eu planjei um dia morar. No entanto, pra lá estou indo. Vejo os Ramones tocando alucinadamente no CBGB’s dos anos 70, o Lou Reed se drogando no Chelsea Hotel, enquanto executivos de patinete comem hamburgeres no Mac Donalds de Wall Street. Turistas japoneses visitam as ruinas do World Trade Center. Gangues de jovens Negros e Latinos digladiam-se no Harlem, Bronx e Brooklin. Enquanto isso, algum tiroteio entre policiais e um serial killer se passa nas docas. Levo a Nova York os preconceitos de todas as minhas telas quentes e supercines. Mas acho que deve ter algo para eu fazer lá. Afinal, uma cidade que tem o Sonic Youth e o Mestre João Grande não pode ser tão ruim assim.
2.
Chego no aeroporto num sobressalto. Dormia profundamente, e quando dei por mim estava com minhas malas em um carrinho, o funcionário da Delta Airlines me pedindo meu endereço nos EUA. Na area de embarque ignoro o Duty free. Vejo umas camisetas amarelas de algodão com “Brasil” escrito em verde. Lembro-me do Victor me aconselhar a levar uma destas. É claro que ele falava em ir até o camelô mais próximo, não ao free shop. Trinta e dois dólares. Prefiro ir até a banca e comprar o pocket book “O Viajante Solitário” do Jack Kerouac. Descubro que ele estudou em Columbia, mas faz questão de desprezar este fato em prol do auto-didatismo. Um olho no livro, outro no campeonato espanhol que passa no monitor da sala de espera. E eu espero. Um bando de adolescentes gordinhos falando inglês, guiados por uma senhora gordinha falando inglês, passa pelo meu campo de visão. Lembro dos gordinhos comedores de hamburgueres de “As bicicletas de Belleville”. Mais pré-conceitos.
3.
Aeroporto de Atlanta, dez horas depois. Mostro o passaporte mil vezes, entrego papéis, ganho carimbos. Meio tonto de sono. O que você vai fazer nos EUA? Nem sei, eu deveria responder. Revista da Secretaria da Agricultura (“No food”), da Secretaria de Segurança. Demoro pra descalçar o coturno. O berimbau é liberado como “bagagem acima do tamanho”, e os 24 cds do Meste Jogo de Dentro passam batidos na Alfândega. Passados todos os obstáculos, entro em um vagão escuro no trem interno do aeroporto e ando cinco estações até chegar ao meu terminal de embarque. Agora estou dentro. Se eu estivesse em um videogame, soaria uma musiquinha alegre, a tela brilharia com um letreiro dizendo que eu passei para a fase 2.
Jardins, em frente a Maksoud Plaza. Uma garota passa, peitos empinados, corpo jogado para tras, como se o minúsculo cachorro que leva à coleira a puxasse com força incomum. Será que já estou em solo estadunidense? Olho de lado e lá estão o Digão, o Alex e a Sílvia. Not yet.
O Tatu me recomendou que desse uma cuspidinha de cima da estátua da liberdade. O Nilsão me pediu para achar uns vinis do Miles e do Zappa. A Violeta me pediu pra mandar fotos e cartas. Na mochila, 24 cds do Mestre Jogo de Dentro e outros tantos de mp3, PDF... É sério, estou indo trabalhar.
Digão e Alex se vão, tomo um café com a Silvinha na padaria fresca da esquina do Maksoud. Chove em São Paulo. Ela me dá uma encomenda pro Hidalgo e eu dou a ela umas coisas pra levar pra Campinas. Entro no ônibus, fugindo da chuva. Agora é comigo. O centro está alagando, mas ainda tenho mais de três horas para chegar em Guarulhos. Mas nunca se subestima o trânsito em São Paulo, the rotten apple. Ainda mais depois de um puco de terrorismo materno.
Nova York nunca foi um lugar que eu planjei um dia morar. No entanto, pra lá estou indo. Vejo os Ramones tocando alucinadamente no CBGB’s dos anos 70, o Lou Reed se drogando no Chelsea Hotel, enquanto executivos de patinete comem hamburgeres no Mac Donalds de Wall Street. Turistas japoneses visitam as ruinas do World Trade Center. Gangues de jovens Negros e Latinos digladiam-se no Harlem, Bronx e Brooklin. Enquanto isso, algum tiroteio entre policiais e um serial killer se passa nas docas. Levo a Nova York os preconceitos de todas as minhas telas quentes e supercines. Mas acho que deve ter algo para eu fazer lá. Afinal, uma cidade que tem o Sonic Youth e o Mestre João Grande não pode ser tão ruim assim.
2.
Chego no aeroporto num sobressalto. Dormia profundamente, e quando dei por mim estava com minhas malas em um carrinho, o funcionário da Delta Airlines me pedindo meu endereço nos EUA. Na area de embarque ignoro o Duty free. Vejo umas camisetas amarelas de algodão com “Brasil” escrito em verde. Lembro-me do Victor me aconselhar a levar uma destas. É claro que ele falava em ir até o camelô mais próximo, não ao free shop. Trinta e dois dólares. Prefiro ir até a banca e comprar o pocket book “O Viajante Solitário” do Jack Kerouac. Descubro que ele estudou em Columbia, mas faz questão de desprezar este fato em prol do auto-didatismo. Um olho no livro, outro no campeonato espanhol que passa no monitor da sala de espera. E eu espero. Um bando de adolescentes gordinhos falando inglês, guiados por uma senhora gordinha falando inglês, passa pelo meu campo de visão. Lembro dos gordinhos comedores de hamburgueres de “As bicicletas de Belleville”. Mais pré-conceitos.
3.
Aeroporto de Atlanta, dez horas depois. Mostro o passaporte mil vezes, entrego papéis, ganho carimbos. Meio tonto de sono. O que você vai fazer nos EUA? Nem sei, eu deveria responder. Revista da Secretaria da Agricultura (“No food”), da Secretaria de Segurança. Demoro pra descalçar o coturno. O berimbau é liberado como “bagagem acima do tamanho”, e os 24 cds do Meste Jogo de Dentro passam batidos na Alfândega. Passados todos os obstáculos, entro em um vagão escuro no trem interno do aeroporto e ando cinco estações até chegar ao meu terminal de embarque. Agora estou dentro. Se eu estivesse em um videogame, soaria uma musiquinha alegre, a tela brilharia com um letreiro dizendo que eu passei para a fase 2.


0 Comments:
Postar um comentário
<< Home