3.4.06

It's a long and winding road

Ter, Março 28, 2006 11:40 am

Oi Pedro,

Como está por aí? Pegou o avião? Chegou? Se achou em NY? Mande notícias...
Não nos despedimos... mas gostaria de desejar para você uma boa estada por
aí, que a vida te possibilite bons e felizes encontros.
Desculpe se em alguns momentos não pude ser uma boa anfitriã.... nossa
amizade e vivências juntos com certeza nos ajuda a entender tudo isso sem
problemas, né?

um abraço pra você
pro Hidalgo e leila

Alik

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Ter, Março 28, 2006 4:02 pm

Alik e demais neurônios-coração,

O Pedrôncio pode responder o que quiser da viagem, da chegada, da estada e
da partida, mas eu, como tvz última do gueto a vê-lo em solo verde e
amarelo (fantasiado de cinza), tbem tenho a dizer:
Saiu daqui dizendo que ia estudar, mas, dentre as malas de roupa, só
reconheci um berimbau;
Como último doce da terra, preferiu um brownie à broa de fubá - o que tvz
queira dizer que já estivesse se habituando à culinária de cima do
equador;
presenciou uma torrencial chuva nos jardins, mas ante os raios e trovões,
perguntou-me se eram 'implosões' (prédios? bombas?). Fiquei imaginando
como estava por dentro...
Continuava olhando calmamente com seus olhos verdes - mas sua incansável
perna teimava em sapatear.

Sei que entrou com suas malas no ônibus rumo a Cumbica, a tempo suficiente
de chegar ainda que o ônibus fôsse boiando. Mas se chegou....
Ai já é outro relato.

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Seg, 3 de Abril

Alik e Silvia,

Olás. Estou aqui há apenas três dias e parece que o Brasil já é um passado meio distante. Ao mesmo tempo me sinto meio perdido, tentando entender os códigos desta cidade louca em que pessoas do mundo inteira vivem o american way of life. Síl, você captou o espírito da minha saída, talvez mais do que eu. Fiquei pensando no Brownie… na sala de espera do aeroporto tomei um guaraná com pão de queijo, talvez o mais caro da minha vida.
Pode ser que eu tenha chegado boiando no aeroporo, nem vi. Desmaiei no ônibus e quando me dei conta estava desembarcando em Atlanta, com dor no pescoço. Atlanta é na Georgia, no sul. Na espera do avião pra Nova York, vi o sol nascer por estas bandas pela primeira vez. Na sala de espera, uma mulher árabe, com seu lenço na cabeça, entrava na fila pra embarcar. Um senhor judeu, gordo e barbudo, deu passagem a ela dizendo, eu suponho, que não estava na fila. Senti uma tensão no ar, não se fruto da minha imaginação. Em torno de mim, muitas pessoas negras sentadas nas cadeiras. Uma mulher negra linda lia, na cadeira vizinha, uma revista de moda negra, o que quer que isso signifique. Na fila pra entrar no avião, um menininho loiro com sua mãe estava extasiado por andar pela primeira vez de avião. Pergunto pra ele se sabe de onde eu vim de avião, ele faz que não. Quando respondo “Brasil”, ele pergunta se é perto da Turquia. A mãe ri.

Em Nova York, desaguei já na saída do aeroporto. Vai, meu filho, levanta e anda. Para pegar as malas não precisava mostrar comprovante nenhum pra ninguém. Mas para pegar um carrinho precisava depositar uma moeda na máquina. Sem carrinho mesmo, fiquei por ali esperando o Hidalgo. Ele nunca que chegava, e descobri que a nota de cem dolares que eu tinha no bolso não servia para pegar ônibus nem metrô, nem para telefonar para celular do Hidalgo. Me resignei e sentei. Daqui a pouco chega o Hidalgo, casaco e cachecol. Just like me. Pegamos um taxi até a estação Astoria do metrô, no Queens. O motorista era um polaco de um país não identificado (talvez a Polônia…), absolutamente mal humorado, que apenas grunhiu para a gente. A estação era suja, pichada, meio fedorenta. Pessoas de todos os tipos sentadas no vagão. Não reparei muito nelas, conversando em Português com o Hidalgo sem parar. Da janela eu avistava predinhos e mais predinhos. Era uma região feia da cidade. As estações de metrô eram também horrorosas, sujas, pichadas. O Hidalgo disse que o metrô de Nova York é cheio de ratos, coisa que pude comprovar dias depois.

Chegamos em minha nova casa depois de três quadras de caminhada da estação. O bairro se chama Ridgewood, é um sub-bairro do Brooklyn. Puerto Rico, para os íntimos. O apartamento fica num predinho de quatro andares, parecido com todos os outros da vizinhança. A Leila estava lá esperando a gente, pronta pra fazer um rango. Encontrei um quarto com uma cama de casal e um armário embutido. É todo meu. O Hidalgo me adverte que o colchão foi encontrado em perfeito estado na rua (aos domingos as pessoas põem lixos desse tipo na rua) para receber a coreana que morou lá antes de mim. Só que eles descobriram- na verdade a garota descobriu ela mesma- que estava infestado de um bicho chamado “bag bug”. Segundo ele, um minúsculo percevejo sugador de sangue. Mas eles dedetizaram o colchão há um certo tempo e os bag bugs se foram. Inseticidas, químicas de limpeza... that’s América. Fuck... O Hidalgo me convidou então pra conhecer o “rufus”, carinhoso nome para o telha do prédio. Lá de cima víamos Puerto Rico inteiro, um mar de predinhos sovieticamente dispostos. Ao longe o metro passava num viaduto. O piso do telhado era preto de piche. Olhei aquele telhado pensando que era um bom lugar pra treinar capoeira. Depois descobri que não, outra hora eu conto essa história.

Aa noite meus anfitriões me convidaram pra dar uma saída. Fomos comer uns sushis baratinhos (para os padrões de NY, é claro) num restaurante que eles conheciam. Foi meu primeiro contato com Manhathan, esse grande parque de diversões a céu aberto. Domingo aa noite, tudo aberto e as ruas cheias de gente. Fazia pouco frio, acho que estavam todos felizes com o fim do inverno. Agora já estou um pouco mais localizado, mas não sei dizer onde fica esse restaurante. A garçonete era coreana e já tinha morado em Manaus. Comemos, bebemos, demos uma andada pelas ruas de Manhattan e pegamos o metrô de volta para casa. Eu estava podre de cansado, e o dia seguinte era segunda-feira.

Pois bem, donas-moças, esse foi meu primeiro dia na terra do Tio Sam. Isso já faz uma semana... depois eu conto mais.

Sil, valeu por me despachar. Sua companhia é sempre uma preciosidade. Ah, e adorei brincar com o amigo Georgie (http://www.planetdan.net/pics/misc/georgie.htm).

E, Alik, ao contrario do que você disse, você e o Nem foram ótimos anfitriões nos meus tempos de limbo campineiro. Valeu mesmo. Boa sorte e serenidade para os dois na escolha dos caminhos da vida. E um beijo pro Lui.

Um grande beijo,
P.