28.7.06

betty blues


Hoje nao consegui trabalhar. Acordei tarde, calor insuportavel, o apartamento abafado. Eu me sentindo sufocado, um no' no peito. Tomei o cafe' da manha e liguei o computador. Fiquei olhando pra ele, sem sentar-me na cadeira. Vi na prateleira do Hidalgo o filme que o Felix, de Montreal, fez. Dezesseis minutos, assisti. Uma animacao abstrata, viagem visual. Como o filme que assisti ontem, num parque do Queens, sobre a musica cigana, um road movie musical. Fui com a Wing Mai, minha quase namorada em Nova York. Pus um fim no quase namoro, obedecendo aa crueldade de meus nao-sentimentos. Depois fomos comer comida mexicana, fingindo sermos amigos. Eu gosto dela, mas o que preciso atualmente e' um daqueles amores arrebatadores, que nao dao chance pra pensamentos contrarios. E nao em Nova York. Estarei apagando as luzes muito antes de sair? Talvez. Me sinto sufocado, um no' no peito neste apartamento abafado. Acordei tarde, nao consegui trabalhar. Tinha tres cartas pra escrever, para que nao chegassem depois de mim. Escrevi uma, quatro paginas, as unhas furando a palma das maos. Requentei o almoco de ontem, peguei minhas coisas e sai'. O metro era ainda mais abafado, quando entrei no trem o frio artificial do ar condicionado me deu dor de cabeca. Vaguei pelas ruas procurando uma marca especifica de cha verde. Cheguei na biblioteca publica, ampla, arejada. Usei minha racao diaria de 40 minutos de internet para mandar mensagens de agradecimento aos amigos de Montreal. Nao estando no Brasil, preferia estar la. A voz em off disse que a biblioteca ia fechar em cinco minutos. Voltei para casa entre plataformas quentes e trens gelados. Dia abafado, insuportavelmente sufocante. A caixa do DVD de "Betty Blue" estava sobre a TV. Esse era um daqueles que faltava assistir. Leila chegou, tomou um banho e foi dormir. Hidalgo estava trabalhando. Quando choveu no filme, ouvi os trovoes na rua. Abri a janela. O filme e' de uma leve tristeza, por isso mesmo ainda mais triste. Betty foi enlouquecendo, a chuva foi se anunciando. Ao fim, sala escura, temporal que teimava em nao cair, subi no telhado do predio, sem camisa. O vento trouxe umas gotas de chuva. Andei de um lado para o outro, olhando a cidade que nao me pertence, a cidade a que nao pertenco. A chuva era boa. Nao pensei em nada, fiquei observando o triste bairro latino, sujo, descuidado, cheio de carroes parados em frente aos predinhos decadentes. Vi que a Deli da esquina estava aberta, desci e comprei uma cerveja. Esta' na hora de voltar pra casa. Mas antes preciso terminar o que vim fazer, pois hoje acordei tarde, calor insuportavel, e nao consegui trabalhar.