26.4.06

conexao Paraitinga

De: Pedro
Para: David
Quarta, 26/4/2006

Fala, Kibe!
Nao e' estranho esse negocio de a gente poder se falar de tao longe assim?
Ja' estou em Nova York ha' um mes e ainda nao me acostumei com isso aqui. Acho que quando eu acostumar vai estar na hoa de ir embora.
Tem dias que bate uma tristeza, uma saudade de tudo e de todos. E' uma cidade muito louca, mas e' um lugar dificil de se fazer amizades. Talvez mais do que Sao Paulo. As pessoas estao atras da grana, esquecem um pouco que o mundo tem coisas mais importantes que isso. Nao sei se sou cabeca dura demais, mas me parece que todos os pre'-conceitos que eu tinha a respeito dos americanos estao se confirmando na pratica. Aqui e' uma cidade com gente do mundo inteiro, varias cores, varias linguas, mas de um jeito meio estranho. Ja' escrevi sobre isso pra algumas pessoas. Moro num bairro latino- mexicanos, porto-riquenhos, colombianos, equatorianos, venezuelanos. Mas mesmo com os hermanos parece que rola uma dificuldade de comunicacao. Mesmo parte dos brasileiros que encontro por aqui parece ser aquela galera meio americanizada, que veio pra ca' atra's do "sonho americano". Definitivamente nao e' o meu caso. Mas esta' sendo uma experiencia importante na minha vida. A universidade e' um lugar interessante, tenho trabalhado muito, ficado muitas horas na frente do computador. O que mais doi e' ficar longe da Violeta. E' foda.

Treinar na academia do Mestre Joao Grande esta' sendo muito bom. Fora alguns estranhamentos iniciais, estou gostando muito. O Mestre e uma figura incrivel, muito especial mesmo. Esta' velhinho, com alguns problemas de saude, mas come capoeira com farinha. As rodas acontecem aos domingos, vao das duas da tarde ate' aas nove da noite. Sempre vai um monte de gente de fora, angoleiros que estao passando por Nova York, uns regionais, uns Mestres de vez em quando. Aas vezes aparecem umas pessoas com uns jogos meio esquisitos, pessoas que tem umas ideias estranhas sobre o que e' capoeira angola. Mas no geral e' tranquilo. Apos a roda da semana passada fomos eu, Hidalgo e Leila (meus amigos com quem estou morando, que tambem sao do grupo em Campinas) tomar umas cervejas com umas seis outras pessoas do grupo daqui, uma galera gente boa mesmo.

Na segunda passada o treino foi o que o Mestre chama de "rodinha". A gente monta a bateria, ele vai fazendo as duplas que jogam e vai explicando o que as pessoas estao fazendo de errado, da' umas dicas. Detalhe: ele nao fala ingles... foi lindo, imagina, ser ensinado pelo Mestre Joao Grande, que honra. E ele e' uma pessoa muito simples, sem um pingo de arrogancia. Quer mesmo e' ensinar capoeira pras pessoas. No final a "rodinha" estava com uma energia tao boa que ele chamou o Cabelo (aluno mais antigo dele da geracao EUA, que e' brasileiro e agora mora em Itacare', mas esta' passando o mes aqui) pra jogar. Jogou com ele un dez minutos. Eu fiquei emocionado, tocando meu agogo, as lagrimas brotando no canto dos olhos, guardando bem aquela imagem pra contar pros meus netos.

So' esse dia ja' valeu todos os momentos de tristeza, passados e futuros.

E' isso ai', mano velho, manda noticias de Sao Luiz. Como anda a obra?

Um grande beijo para a Ju, Dona Euceia e um axe pra galera do GCAP. Manda lembrancas tambem pro Seu Geraldo e pra todos os amigos dai'.

Saudades, camarada.