11.4.06

me dicen el clandestino

De: Mariana P.
Para: Pedro S.
Seg, Março 27, 2006 5:54 pm

Pedro my darling,
A balada foi linda mesmo. Valeu o esforço e asujerada...valeu mesmo, todos curtiram muito...o únicoincidente foi o roubo da bike da Maíra, mas beleza,ela também já superou. Quanto a gastos e coisa e tal pode deixar queresolvemos tudo por aqui, ainda nem paramos paraconversar sobre isso. Amanhã devolvo os filmes, don´tworry. Fique bem Pedrito, amarre seu cachecol como o BobDylan, não morra de saudades de seus comparsas latinose nem enlouqueça com as atrocidades americanas. E vêse manda notícias rapá!Muitos e muitos beijosMarips: manda seu endereço!



De: Maira T.
Para: Pedro S.
Dom, Abril 2, 2006 1:07 pm
Oi Pedro
e aí, como vai a invernada?Tem trilhado a floresta de concreto da cidade que não para?Tem assistido um musical brega mas clássico na Broadwaaaayy!?Pegado um taxi com um árabe até a 5a. Ave e andado anonimamente elegante?Tomado um cafezinho de cinco dólares em algum café de Manhattan?Tem perambulado pela cena novaiorquina do tal indi-roque - aquela fusão de música indiana e rock n´roll dos bons anos?Tem se perdido nos becos e sub-mundos do Chinatown e Little Italy?Jogado um basquetebol com os manos no Harlem e de lá foi para uma missa batista com aqueles corais?Feito cooper no Central Park e cruzado com o Woody Allen e a Yoko Ono?Bem, e por ai pára o meu grande conhecimento clichê de Manhattan. Por aqui, tenho feito boas coisas e estou feliz com meus aprendizados diários. Com um certo medo de me perder, parece que essa sensação me vem sempre. Aqui o frio está chegando junto com águas de março que parece que se extenderá até mais abril.O Paul passou seu email pra amiga dele que mora em NY.Bem, mande notícias! Um beijo e até mais,Maíra


De: Pedro S.
Para: Maira T. e Mariana P.
Ter, Abril 11, 2006, 11:55

Ola’, muheres (Ves que mi portunol es una belessa...)

Estou quase ficando louco para responder para todo mundo, entao estou tentando mandar noticias para mais de uma pessoa de uma vez. Anyway, acho que voces formam uma boa dupla, nao? Para isso tambem e’ o meu diario on-line, pras pessoas que estiverem interessadas em saber o que anda rolando comigo poderem acompanhar, entrando por livre e espontanea vontade. Nao sei se voces ja’ entraram alguma vez. Espero que voces nao se importem em me dar o copyleft das suas ultimas mensagens para eu publicar la’ junto com a minha resposta. Se se sentirem desconfortaveis com isso, me avisem eu tiro do ar na hora. E podem mandar mensagens impublicaveis tambem, nao vou socializar all my life com everybody, you know?

Ontem bateu pela primeira vez uma vontadezinha de voltar para casa. Fiquei com a cabeca doendo depois de espremer, espremer e escrever so’ dois paragrafos em seis horas de trabalho. Dai’ fui almocar meu rango trazido de casa, sozinho na sala do meu professor e fiquei lembrando de minha vida baraogeraldiana, dos amigos, da filhota. Deu um aperto enorme no peito... Engracado que independentemente e por motivos diferentes o Hidalgo e a Leila tiveram o mesmo sentimento ao longo do dia. Homesick blues.

Apos chegar aa conclusao que o trabalho nao ia render mais nada, aas tres da tarde decidi mandar tudo aas favas e dar um role pela cidade. Eu havia recebido um panfleto de manha dizendo que ia ter uma manifestacao no City Hall, em Lower Manhattan, contra essa nova lei da Imigracao. Na verdade eu nao sei exatamente do que se trata, alem da questao generica de que e’ pra aumentar a pressao contra os imigrantes ilegais. Estava marcada uma concentracao de estudantes da columbia em frente ao predio central ao meio dia para todos irem juntos para la’. Eu havia ficado curioso pra saber como era o movimento estudantil e o movimento social nessa terra da pasteurizacao. Como se diz “companheiro” em ingles?

Aa uma da tarde, quando eu voltava do meu almoco solitario, vi umas trinta pessoas aglomeradas no patio central da universidade, com placas e cartazes contra a tal lei. Num pequeno palanque, um carinha cabeludo e de costeletas, com nenhuma cara de imigrante, discurasava em um tom bem ameno. Tudo o que ouvi foi ele dizendo que na verdade as pessoas vem para os EUA porque nao ha’ outro lugar no mundo em que essas pessoas podem encontrar oportunidades para viver como aqui. Ai, meu filho, vai viajar um pouco por ai’...

Fui tentar trabalhar mais um pouco e quando chutei o balde decidi ir ao City Hall, que pelo que entendi e’ a Prefeitura daqui. Quando passei novamente no patio central da universidade, recebi um novo panfleto de um dos caras que estava na concentracao aa uma da tarde. Estava acontecendo naquela mesma hora uma outra manifestacao, em um saguao da universidade, contra a compra de material produzido com trabalho escravo pela Universidade de Columbia...

Umas tantas estacoes de metro e la’ estava eu, no City Hall. No vagao, latinos e arabes. Todos desceram no lugar. A boca da estacao do metro era bem no meio da muvuca. Nao sei dizer se eram mil ou cem mil, mas tinha MUITA gente. Distintos homens da lei por todo lado. Fiquei achando que ia dar merda, mas “viver e’ muito perigoso”, seu Guimaraes ja’ dizia. No entanto as pessoas nao pareciam muito preocupadas, tinha maes com carrinhos de crianca, velhinhas com cartazes, todo mundo numa calma.

O local da manifestacao estava totalmente isolado pela policia, pra entrar voce tinha que ficar na rua (nao na calcada), isolado por cavaletes de metal. La’ na frente um palco com um cara discursando em espanhol, dizendo que em ultima instancia todos eram imigrantes nos EUA, etc, etc, etc. Tinha a maior cara de raposa. Dei uma volta pelas quadras ao redor: mais cavaletes, mais policia. Uma senhora vendia bendeiras do Mexico, Colombia, Argentina, Brasil, Republica Dominicana, Cuba e mais um monte de paises. Dois pesos. E muita gente comprava para ir ao local da manifestacao.

Dai’ acho que eu entendi. A manifestacao e’ legalizada, autorizada, planejada, mas o Estado a faz acontecer de maneira tal que qualquer ato de rebeldia alem da conta possa ser imediatamente esmagado pela policia. Se a galera se emputecesse, estavam todos no cercadinho montado para conter a multidao, e isolados do resto da cidade.

Fiquei pensando nessas coisas todas, democracia, rebeldia, repressao, enquanto tentava dar uma volta pra ver o que rolava nos arredores. Ao meu lado, a capela de Saint Paul, o edificio mais antigo ainda em uso de Nova York. Me chamaram a atencao as lapides do cemiterio nos fundos da capela, mortos enterrados no coracao de Manhattan. Qual nao foi a minha surpresa quando olhei para o outro lado da rua e vi nada mais, nada menos que o buraco do World Trade Center! Estupefato, fiquei olhando o buraco, o cemiterio, os manifestantes passando com suas bandeiras e cartazes...

Segui andando a esmo e cheguei de novo nas imediacoes do City Hall, no lugar onde comeca a Brooklyn Bridge, principal ponte que liga Manhattan ao Brooklyn. Dezenas de carros de canais de TV com suas antenas apontadas para o espaco sideral. Olhei para a ponte e vi uma multidao de manifestantes se aproximando, vindos do Brooklyn. Aa minha frente um cara oriental com seu filhinho nas costas, com um cartaz dizendo “I want to grow up in a country that welcomes immigrants”, or something like that.

Misturei-me aa multidao e entrei novamente no espaco da manifestacao. As pessoas gritavam o que estava escrito na maioria das plaquetas: “ningun ser humano es ilegal!”. E o cara do palanque perguntava: “when do we want it?” E aparecia escrito no telao: “NOW”. Algumas pessoas gritavam junto, outras dancavam ao som de uma batucada caribenha.

Decidi que era hora de partir. Entrei na estacao World Trade Center do Metro (essa ainda existe). Ate’ encontrar nos subterraneos a minha linha, fui acompanhado por olhos a me fitarem, desenhados em mosaicos nos ladrilhos da paredes da estacao. Cruz credo.

Dez minutos e eu emergia na 14th Street com a 7th Avenue. E corria para a Academia do Mestre Joao Grande.

E’ isso, amoremios, estas sao as noticias fresquinhas. No mais, me sinto, sim, um Bob Dylan cucaracha; a Broadway e’ pra mim um monte de luzinhas piscando ate’ causar epilepsia; o cafe’ e’ ruim e caro, mas nao da’ pra pensar em Real; o Central Park e’ um barato, mas nada de Yoko nem Woody Allen (apesar de que outro dia eu passei no famoso lugar onde John foi assassinado). E, sim, ta’ faltando o tal indie-rock na minha vida de New Yorker. Mas isso se resolve.

Keep in touch, girls.

Beijos,
P.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Pedro, gostei muito do seu diário, ele realmente é bem preto, mas eu gostei
disso....as fotos são poucas mas dizem tudo. Li tim tim por tim tim, e fiquei
feliz com suas presepadas, dei boas risadas também. Manifestações de mentira,
spray anti-HIV, enlarge your penis....tsc tsc tsc minha nossa senhora, que lugar
é esse? é o mundo às avessas, não é? Tinha essa sensação quando estava na
Califórnia também...onde toda luta vira produto, toda troca envolve grana, o
puritanismo tão pregado some depois de pouca (ou nenhuma) birita e muita coisa
tem gosto de plástico, além de estarem sempre disponíveis na forma spray-aerosol
ou em galões de 5L....fueda negòn.
Pois é...comigo as coisas vão indo, eu vou indo....enfim. Tô feliz pra burro mas
tô meio confusa também, cheia de coisas para escrever e para pensar...projeto
daqui, mestrado de lá, rede de agroeocologia, coração apertado, casa para
procurar...trabalho é o que não falta. Mas assim é que é bom, né? mente
ocupada...ai ai ai (suspiro).

1:58 PM  

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