5.4.06

eu vou pra angola

From: pedro_s@riseup.net
To: capoeirasementedeangola@yahoogrupos.com.br
Date:
Mon, April 3, 2006 4:08 pm

Olá, camaradinhas.

A mensagem é longa…

Estou falando direto da primavera novaiorquina, que é mais fria que o
inverno campineiro. Mas está tudo certo, porque pelas fotos da neve que o
Hidalgo e a Leila me mostraram, o bicho estava feio há bem pouco tempo
atrás. O tempo está agradável, tem dia que nem precisa usar casaco.

Estou há uma semana aqui e ainda tento entender este lugar, estas pessoas…
festa estranha com gente esquisita. Me lembra uma plaqueta que tinha na
casa da minha avó- “esta es una casa de locos. Y contigo somos más”.

Como vocês devem saber, estou morando com a Leila e o Hidalgo. Vivemos em
um bairro latino no Brooklyn, meio periferia, pertinho do metrô. Fora a
sujeira na rua, é um lugar interessante. Dá muito mais ibope na vizinhança
improvisar um portuñol do que falar ingles. A Universidade de Columbia,
onde estou estudando, fica há uma hora de metrô de casa.

O casal aqui está numa boa, eles mesmos podem mandar notícias em breve. A
Leila está trabalhando em um “garden center”, que, segundo ela conta, é
uma mistura de floricultura, escritório de paisagismo, viveiro de mudas e
shopping. Carteira assinada e férias. Décimo-terceiro eu não se existe por
aqui… O Hidalgo terminou um trampo de edição e, na falta de uma
perspectiva melhor, está se virando como garçon em um bar chique de
Greenwich Village. Sabadão a gente fez uma boca livre por lá. E eu aqui
com a minha bolsa de estudos brasileira, ainda assustado com os preços em
dólar.

Quando o Hidalgo me apresentou o telhado do prédio em que moramos, pensei
que seria uma boa treinar lá em cima. É aquele tipo de terraço que a gente
vê nos filmes americanos, em que o chefe dos bandidos tem uma mesinha onde
vende drogas e armas. Ao que me consta não tem bandido nenhum nas
redondezas. Mas tem polícia. Na boa, me sinto vigiado o tempo inteiro por
aqui… no primeiro dia em que tentei treinar no tal telhado, me alonguei e
quando olhei, em um telhado ao longe (a vizinhança é um monte de predinhos
iguais), dois distintos policiais devidamente trajados, olhando para o
cucaracha aqui, anotando algo em um caderninho. Oh, fuck… me lembrei do
Mestre Bigodinho cantando “vamos jogar capoeira/enquanto a polícia não
vem/e quando a polícia chegar/ ela joga comigo também”. Podia ter ficado
por lá, dar uma banana pros guardas, mas percebi que o piso do telhado,
revestido com piche para impermeabilizar, que parecia tão firme no dia da
minha chegada, começava a virar uma gosma no sol da manhã. “Tudo bem, eu
desisto”, pensei. Daí estou tentando treinar no meu quarto mesmo,
afastando os móveis, mas é meio apertado.

Na quarta-feira o Hidalgo e a Leila me levaram pra conhecer a Academia do
Mestre João Grande. Fica no terceiro andar de um prédio no coração de
Manhattan. Me emocionei ao entrar lá. Ê um espaço relativamente grande,
meio comprido, muito decorado. Chama a atenção um altar cheio de flores,
com várias imagens religiosas e muitas plantas. Lembra algum lugar pra
vocês? Me senti confortável lá. O treino já estava na metade. O Mestre
explicava os movimentos que deveriam ser feitos ao aluno mais velho e ele
repassava aos outros alunos. O Mestre, ao que parece, não fala uma palavra
de ingles. Fiquei imaginando como deve ser a vida dele em terra alheia,
sem falar a lingua. Os alunos que estavam lá neste dia eram todos gringos,
uns poucos arranhavam o português. Quando chegamos, imediatamente Mestre
João Grande veio nos cumprimentar carinhosamente. E eu ali, não
acreditando. O Hidalgo me apresentou e ficamos assistindo ao final do
treino. No final chegou o Mestre Cabelo, aluno do Mestre, que esteve aí no
espaço no final do ano. Quem foi pro evento em Salvador o visitou, perto
de Ilhéus. Ele vai passar um mês por aqui.

No dia seguinte voltei sozinho aa academia, já de uniforme. O treino é
caro, são 15 dólares por treino (!), mais 15 dólares para participar da
roda (!!!). Mas estou fazendo esse esforço, porque acho que vale a pena.
Ademais, this is New York… outro dia comprei duas berinjelas e custou 5
dólares… vou tentar treinar uma ou duas vezes por semana lá. Mais que
isso, a grana não dá. A Leila e o Hidalgo também vão começar a treinar,
estavam parados na inércia do inverno e na correria dos trampos, mas se
animaram com a chegada da primavera e, talvez, também com a minha chegada.

As pessoas que estavam treinando neste dia eram outras do que as do dia
anterior. Mestre Joao Grande dividiu a turma em dois grupos, um de
iniciantes e outro de pessoas que já treinavam há mais tempo. No segundo
grupo, que ele me mandou ficar, falou para ficarmos jogando em duplas.
Fiquei viajando se ele não fez o treino assim pra ver como era meu jogo,
mas depois achei que era muito egocentrismo da minha parte. Foi uma hora e
meia de jogo, com quatro parceiros: uma garota chamada Shirli, israelense;
um cara americano, com o apelido de Baiano; uma moça americana chamada
Anna, de quem eu me lembrava do evento do ano passado em Salvador; e o
Cabelo. Eu estava precisando muito jogar um pouco de capoeira, foi ótimo.
O pessoal é bem educado no jogo, não jogam com violência. Os movimentos da
linhagem do Mestre João Grande são um pouco diferentes, acho que vou ter
dificuldade nos treinos. Espero não trocar as bolas quando chegar no
Brasil, por isso é que eu estou tentando treinar um pouco em casa, pra não
esquecer… Na última meia hora do treino, instrumento. Os berimbaus da aula
de instrumento são os da academia, os alunos nao precisam trazer de casa.
Na verdade não sei se as pessoas em geral têm seu berimbau, deve ser meio
difícil conseguir um por aqui. Por isso, e também pela questão da língua,
acho que o pessoal deve ter um pouco de dificuldade na parte musical. Mas
são primeiras impressões...

Ontem (domingo) foi a roda. É uma loucura, ela começa aas duas da tarde e
termina aas nove da noite. De acordo com o que aprendemos com Mestre Jogo
de Dentro, tendemos a querer ficar na roda do início ao fim, mas é quase
impossível. Os próprios alunos não ficam. Ficamos mais ou menos cinco
horas por lá. A roda teve uma energia boa, apesar de certos comportamentos
de alguns alunos que me soaram meio estranhos face ao que nós aprendemos
sobre como se portar numa roda, e com um Mestre, ainda mais o Mestre João
Grande. Mas fiquei pensando que uma pessoa daqui, para ter uma visao
abrangente da capoeira, precisa correr muito atrás, pois é uma coisa
totalmente for a de contexto. . Ate mesmo em termos das relações que as
pessoas têm no dia-a-dia, mais frias, mais formais e mais baseadas no
dinheiro. E essa coisa do dinheiro é dureza por aqui. Everything is money,
you know? O Mestre João Grande está bem longe disso que estou falando, mas
ele já tem uma certa idade, e a galera que cuida disso na academia é
daqui… a Leila ficou brava, por exemplo, porque ela foi obrigada a sair da
roda e pagar, bem na hora em que o Mestre estava cantando… Mas alguns dos
alunos mais velhos parecem ter essa consciência de que estou falando. Sei
lá, também não estou querendo julgar ninguém, estou aqui pra aprender.

Estou falando tudo isso mas fiquei feliz da vida em estar lá ao lado do
Mestre João Grande, seus alunos e visitantes, jogando capoeira. O lugar,
repito, tem uma energia muito boa e o pessoal parece ser legal. O
estranhamento é, talvez, um estranhamento mais amplo que estou tendo com
relação ao jeito de ser dos novaiorquinos, que é muito diferente do meu
modo de ser. E acho que o estranhamento faz parte do processo de
aprendizagem.

No mais, muitas saudades do povo daí… o Hidalgo de vez em quando arranha
um samba de roda no cavaquinho, e eu fico lembrando da galera. Gostaria de
agradecer a todos os que participaram da festa de despedida- nao vou
esquecer daquela roda…


Abraço a todos,

Pedro.