From: Pedro
To: Mauro Almeida, Augusto Postigo e Projeto Biota SLP
Ter, Abril 4, 2006 1:48 pm
Oi, Mauro e Augusto, Paulo e comapaneiros luizenses.
Ainda nao cai’ na real que estou aqui na Universidade Columbia, que estou
em Nova York… um pouco disso e’ culpa do Mauro e do Augusto... alias,
como esses americanos sao culpados! Estou de saco cheio das pessoas
falarem “Excuse me” e “I’m sorry” pra mim, toda a vez que encostam,
esbarram entram, saem, olham... ainda estou fazendo uma pesquisa de campo
para a etnografia dos novaiorquinos. Ainda estou na fase do estranhamento,
principalmente com relacao aas questoes raciais, com o ultracapitalismo e
com a paranoia anti-terrorismo.
A Universidade de Columbia e’ um lugar bem interessante, bonito, bem
urbano, mas antigo. A paisagem me era familiar, talvez porque eu ja a
tenha visto uma centena de filmes americanos. O CERC, centro onde o Miguel
Pinedo, meu orientador daqui, trabalha, e’ como um mini-Nepam. Tem o
Miguel e acho que mais um pesquisador “residentes”, e tem varios outros
associados. E’ um lugar bem pequeno, eu nao tenho uma sala nem um
computador disponivel por la’. E nao posso assistir a nenhum curso, porque
sao pagos. Sao pagos ate’ para ser ouvinte... Alias, nao posso nem mesmo
retirar livros da biblioteca, a nao ser que pague uma taxa de 30 dolares
por mes... quando questionei isso para a funcionaria da DAC daqui (apos
ter pago 15 dolares pra fazer uma carterinha), ela disse “everything is
money”. “I thought in the university everything was knowledge.”, eu
deveria ter dito. Mas nao disse- terra alheia, pisa no chao devagar, diz
aquela musica do Mestre Ambrosio. E parece que em NY, mas do que em
qualquer outro lugar que eu ja’ tenha ido, a frase da secretaria e’
verdadeira.
Estou fazendo esse terrorismo, mas nao se assustem, essa na verdade foi so
uma chateacao do primeiro dia. O Miguel e as funcionarias do CERC me
receberam muito bem, o Miguel arranjou um canto na sala dele, me deu a
chave e o codigo do elevador para eu ter acesso ao Centro quando ele nao
estiver funcionando. Disse que vai tambem me dar a senha dele para que eu
possa tirar livros na biblioteca. No CERC tem tambem uma cozinha que eu
posso usar aa vontade, o que e’ bom pra nao ficar gastando grana comendo
na rua todo dia. Mas o Miguel gosta de pagar uns almocos, no mais puro
Mauro Almeida style. O Miguel conseguiu, ainda, com a Angelique, uma
garota belga que trabalha com ele, um notebook usado. Ela e’ daquelas
pessoas que fuçam os aparelhos eletronicos e entendem tudo sobre o
assunto, apesar de ela trabalhar com bioquimica da malaria... o fato e’
que ela tinha esse notebook, de 2000, com o HD queimado, e se prontificou
a trocar o HD pra mim, colocoando inclusive um com mais memoria. E ela vai
me dar de presente o notebook, que era dela, mas agora ela tem um melhor.
So’ vou pagar pra ela o preço do HD, uns 70 dolares. Nada mal. Dai’ eu
lembrei de outra musica, essa do Mundo Livre: “o que era velho no Norte/
se torna novo no Sul”.
Em resumo, tenho poucos direitos aqui como “visiting scholar”, mas o
Miguel esta’ dando uns jeitinhos brasileiros pra que eu tenha condicoes de
trabalho. Enquanto o notebook nao chega, comprei um pen-drive pra levar
meus arquivos daqui pra la’, e descobri que na biblioteca principal
(Butler) tem um super laboratorio de computadores, com umas maquinas
rapidissimas e com uns monitores gigantescos. Estou escrevendo daqui,
agora. O unico problema e’ que ainda nao descobri como configurar para por
os acentos no teclado...
Esse e’, na realidade, meu terceiro dia de trabalho efetivo. Acabei ontem
de baixar da internet os artigos que eu tinha impressos no Brasil, mas
que iam pesar muito na mala pra trazer. Baixei quase todos. Percebi,
entretanto, que essa historia dos periodicos da CAPES e’ mesmo
sensacional. Teve coisa que tinha ai’ que nao consegui baixar por aqui...
Nao sei se o Miguel entende exatamente o que eu estou fazendo, desconfio
ate’ que talvez a gente tenha umas divergencias conceituais/ideologiacas
ainda nao expressas. Ele e’ bem “engenheiro”, no sentido de ser pratico e
objetivo. Nao sei se ele vai ter muito saco pras minhas elocubraçoes
antropologicas pos-pos-modernas. Mas pra mim e’ otimo estar com ele aqui
neste momento, pra poder objetivar minha redaçao de tese. Estou tentando
manter uma rotina, e ele se prontificou a sentar comigo semanalmente para
discutir os meus avancos. E isso me obriga a ter avancos semanais...
Domingo eu conheci a Christine Padoch, esposa dele, que e’ pesquisadora do
New York Botanical Garden. Fui a casa deles tomar um brunch (ou seria
branch?). Achei ela muito legal, expliquei um pouco da minha pesquisa pra
ela e ela me indicou algumas pessoas com quem falar. Sao elas: Steward
Pickett, ecologo teorico do Institute of Ecological Studies; Page West,
antropologo do Barnard College; e Carl Zimmerer, da Universidade de
Wisconsin. Perguntei se ela tinha alguma relaçao com o Arturo Escobar e
ela disse que nao, e fez uma cara meio estranha. Neste dia estava junto a
Angela, uma aluna do Miguel, que tambem esta começando a escrever a tese
dela. Pelo que entendi e’ uma especie de sociologia rural/ ecologia humana
de uma area periurbana no Amapa. Parece interessante. Combinei de ir
conhecer o Jardim Botanico de Nova York com a Angela na quinta-feira. A
Christine estara’ nos esperando la’.
Quero ate o fim da semana ter um roteiro mais detalhado de escrita do
segundo capitulo da minha tese, que trata do uso do conceito de paisagem
como forma de ter uma abordagem que inclua o “ecologico” e o “social”. O
capitulo a principio chama “a paisagem como espaço socio-ecologico”. Quero
ja ter umas analises etnograficas neste capitulo, mas tem um vies teorico
forte. Se voces tiverem alguma sugestao, por favor me mandem.
Ademais, nos tempos em que nao estou na universidade, estive ate’ agora na
companhia do Hidalgo e da Leila, casal de amigos de Campinas que esta’
morando aqui ha quase um ano. Divido um apartamento com eles num bairro
latino, pertinho do metro. Estou bem acomodado, material e afetivamente
falando. Ja’ comecei minha aulas de capoeira na academia do Mestre Joao
Grande, no coracao de Manhattan. Espero estar conhecendo mais gente
interessante no decorrer de meus dias aqui. Parece uma tarefa dificil,
porque aqui o cada-um-cada-um parece ser muito forte. Mas tenho visto uns
rostos que parecem simpaticos, no meio de todo este individualismo.
Pensando friamente, talvez seja ate’ melhor nao conhecer muita gente
mesmo, pra poder escrever bastante. Mas pensando calientemente, nao e’
muito agradavel chegar e sair sem interagir com as pessoas. E acho que
esses tempos aqui vao passar correndo.
Enfim, sao essas as noticias. Se voces quiserem saber um pouco mais da
minha vida aqui, fiz uma especie de diario de viagem on-line no endereco
eatingapple.blogspot.com
Vou tentar atualizar pelo menos uma vez por semana.
Alias, e-mails, cartas, scraps e skypes sao bem vindos.
Um abraço a todos,
Pedro.
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