junk food para outsiders

Data: 5 de abril 2006
De: Pedro
Para Victor
Fala, compadre.
Nao, ainda nao comi no Mc Donald's. Quando eu comer, vai ser no da Wall Street. Mas a alimentacao mudou. O negocio aqui e’ nao comer na rua, senao a grana vai simbora. Dai’ toma-se um cafe’ da manha sarado, em casa (no bacon, please) e se leva um pote com rango, tipo um sanduich com uma salada, por exemplo, pra rua. Dai’ aa noite, ao voltar pra casa, rola um rangao. E’ assim que tenho feito, e e’ legal porque em geral esse rangao da noite eu faco junto com o Hidalgo e/ou a Leila, brazilian style, na medida do possivel. E’ uma merda, bro, tudo o que e’ enlatado, processado e’ baratinho, tudo o que e’ in natura e’ carissimo. E sei la’, parece que os rangos in natura tem aparencia e gosto de plastico. Estou falando principalmente da banana. Estou evitando comer banana aqui. E agua, todo mundo toma da torneira. Em alguns lugares acho mais confiavel, tipo na Universidade, mas no meu predio, por exemplo, fico encanadissimo. Nao tem esse papo de agua mineral pra comprar de galao... na America, faca como o Tio Sam. Depois eu processo o Bush pelo meu cancer.
Mudando de assunto, fiquei pensando na historia da camisa do Brasil que voce falou pra eu trazer. Nao dei muita bola porque eu nao queria ficar no gueto, ta’ ligado? Interagir com os gringos, passar despercebido (ou seria desapercebido?). Mas quando eu cheguei aqui, bro, percebi que a coisa e’ diferente. E’ a cidade mais multi-e’tnica que eu ja’ vi, mas a galera nao se mistura. Eu vou indo no metro, e quando chega umas tres estacoes antes de eu descer ja nao tem mais nenhum WASP no trem. Muitos negros nem falam com brancos, ou falam sem olhar na cara. E’ impressionante. E os latinos sao a rapa, o mais baixo nivel na hierarquia, talvez junto com os arabes pobres. So’ que eu nao sou considerado latino pelos latinos, grande parte das vezes. Por exemplo, vou no comercio comprar uma parada e a atendente fala em espanhol com todo mundo, dai’ olha pra minha cara e fala ingles...
O que estou tentando dizer e’ que de repente ser brasileiro pode ser bom aqui. Se encaixa meio fora de todo esse estupido apartheid. Meio outsider... quer dizer, tem os brasileiros daqui, e dizem que sao todos mineiros, e super farofeiros, mas nao parecem ser tantos. Os que vi ate’ agora por ai’ parecem ser todos turistas. Dai’, em resumo, acho ate’ que esta’ fazendo falta essa camisa do Brasil... Pros negros verem que nao sou WASP, pros latinos se sentirem mis hermanos, pros arabes irem com a minha cara... e se for pros brancos me discriminarem, just do it. Aqui e’ um lugar em que as identidades e’tnicas precisam aparecer, e e’ pra dividir, nao pra interagir.
Agora, estando aqui, eu entendo perfeitamente todos aqueles outsiders americanos que eu sempre gostei. Entendo os filmes do Hal Hartley, do Jim Jarmush (oh, yeah, I’m stranger than paradise), as musicas do Bob Dylan, os beats. Um sentimento de estar aqui e nao pertencer a tudo isso, mas nao pertencer a nada mais, tambem.
That’s it.
Brazil!


2 Comments:
Oi Pedrão!
acabei de ver no mc neuronios que vc está com esse blog. Interessante o jeito que vc descreve essas sensações. Acho que gostaria de passar por isso um dia, sentir na carne. Sei lá... beijos
Entao, legal!
Gostei da historia do blog desse jeito... até porque vc fez de um jeito que os amigos sao meio obriagados a le-lo.(Que pena que eu nao consigo tocar no meu)
Eh muito louco essa historia toda de identidade quando estamos fora... acho que agora vc deve entendermelhor porque fui procurar os bares latinoamericanos em praga (!),fui fazer meu projeto documental sobre os brasileiros e vou fazer compras nos mercados e nas feiras dos imigrantes. Ser estrangeiro é ser outro, é um tipo de antropologia invertida. Sou eu o exotico.
Paris é um lugar peculiar nesse sentido, os caras trouxeram uma multidao de arabes das colonias do norte da africa como mao de obra barata. Entao "arabe" aqui é um conceito mais amplo, Marroquino, Tunisiano, Argelino, etc e tal. Mas nao é o arabe do oriente medio. Bom, o preconceito so muda de lugar... eles sao os mais "pobres", os empregados, e os donos de todas as pequenas mercearias das esquinas. Eles ja estao aqui desde a década de quarenta e ainda sao estrangeiros e vivem em guetos. Tem tambem os chineses (em praga eram os vietnamitas) eles tem os bairros deles, os supermercados deles, os restaurantes deles. Tem uma china dentro de paris.
Eh bizarro ser brasileiro aqui, com toda essa coisa de "ano do brasil na frança" rolou uma moda brasil... bandeiras e havainas por toda parte. Tem uma megacomunidadede brasileiros aqui, na verdade... nao é tao bom admitir isso... mas meus melhores amigos em paris sao curitibanos (...), ... nao sei se é para tanto. Tenho bons amigos franceses, espanhois e latinoamericanos. Mas os franceses, amigos mesmo, sao os que conheci em praga e que estao aqui agora. Em Praga eu fiz bons amigos de todos os cantos do mundo. Isso se deve ao fato de ter estudado em uma escola internacional, eramos todos estrangeiros.
Nos ultimos meses tenho feito umcerto esforso por conhecer a frança, ja que estou aqui... em praga o anthropological blues falou mais alto, mas eu tinha uma fuga na comunidade de estrangeiros, ou com os hermanos latinos, o que nao me permitiu conhecer os tchecos bem. Ja a Fraça esta sendo uma nova experiencia!
... e a comida... voce ja procurou nos supermercados chineses... vai la chinatown e aposto que voce acha feijao preto... os chinese tambem platam e comem. Aqui o meio quilo custa 80 centavos de euro! Mas se acha de tudo... a couve é no bairro portugues, mandioca nos arabes... e assim por diante.
joao
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