7.4.06

Poeira, YoYoMa e Bob Dylan

Quando se começa tem que terminar. Arrumo cuidadosamente os livros da sala do Miguel em ordem alfabética. Quando os tirei da prateleira, havia uma camada espessa de poeira. Não aquela inocente poeirinha do Brasil, uma poeira preta, horrorosa, que me faz pensar como ficam os pulmões das pessoas nessa selva de pedra. Peço um pano para a Evelyn, secretária do CERC, e ela me traz junto um spray bactericida que deveria ser inspecionado pela ONU. Uma espuma fedorenta, terrível. A Evelyn me mostra, rindo, os dizeres no rótulo: eficiente para matar os vírus influenza e HIV… esses gringos são uns loucos.
Lá pelas tantas o Miguel pergunta se eu não quero ir assistir a um concerto do Yo-Yo Ma no Canergie Hall. Me pegou de surpresa. Sabe-se lá o que vai acontecer com a gente quando sai de casa de manhã. É claro que eu quero. Ele tinha ganhado o ingresso, mas estava dormindo em pé.
Pegamos juntos o metrô e descemos no Columbus Circle, estação colada numa quina do Central Park. Andamos duas quadras e lá estamos. Canergie Hall é um daqueles lugares que estão meu subconsciente… e o Yo-Yo Ma é o popstar dos violoncelistas. O Miguel pega o ingresso, passa para mim e vai para casa dormir. Gente finíssima, esse caboclo peruano que virou professor da Columbia.
Meu estômago reclama, e, como é cedo, decido dar uma volta no quarteirão, desviando dos lugares chiques e caros, até achar uma loja do Subway. Não tem nem lugar pra sentar. O cara, que fala um inglês ainda pior que o meu, embrulha tudo em um monte de papéis, guardanapos e plásticos e me despacha. Sento num hidrante, a cinco metros da loja, e consumo vorazmente minha fast food. Oh my god, o que essa cidade está fazendo comigo…
O Canergie Hall deve ser o Municipal daqui. Pelo que entendi são várias salas. Minha poltrona era no terceiro andar, um lugar meio ruinzinho. Lá embaixo, no palco, um tabladinho pro Yo-Yo Ma e dois conjuntos de cadeiras, uma de cada lado dele. Mas nao sao musicos, e' a area vip. Os milhares de funcionários da casa, vestidos elegantemente de vermelho, são todos negros. O público é 60% branco, 40% oriental. O Yo-Yo Ma, se não me engano, é japonês. São três peças pra violoncelo do Bach, ele tocando sozinho. Eu tenho esse disco, está encaixotado no Parque Jambeiro.
Uma beleza de apresentação, apesar de eu ter dado várias pescadas de cansaço. Saí feliz e ganhei a sétima avenida, meus cadarços desamarrando a cada cinco minutos e a barriga roncando. Decidi não entrar no metrô logo, a fim de dar uma desbaratinada. Quebrei aa direita dei de cara com a Broadway. Luzes piscando, outdoors animados, lojas para turistas, mega stores. Eu meio atordoado, com o violoncelo tocando na minha cabeça, achando tudo aquilo uma loucura, e ao mesmo tempo nao achando graça nenhuma. O coração do Grande Parque de Diversoes… onze da noite e a rua lotada, todas as lojas abertas. Pareciam que eram todos turistas. Queria andar até a Union Square, umas vinte ruas abaixo, mas meu casaco e meu cachecol não estavam suficientes para segurar o vento cortante. Fiquei olhando aquelas luzes da Times Square e imaginando o Bob Dylan, chegando aqui com seu violãozinho e sua gaita, no sixties, tocando em qualquer barzinho por uns trocados.
Desco as escadas do metrô da Times Square. É uma estação enorme, entroncamento de umas, sei lá, oito linhas. Andando para procurar a minha, ouço de novo um som de violoncelo. Procuro e lá está, num canto, um oriental igualzinho ao Yo-Yo Ma, tocando cello. Abro minha carteira e deixar um "quarter" no case dele. Pego a linha 1 e desci na sexta avenida com a rua 14, para trocar de trem. Ouço outro som, desta vez um saxofonista e um percussionista tocando música iuguslava. Pego o trem L e Manhattan fica para trás. Meia hora e estou na minha Little Puerto Rico. Papéis jogados pelas ruas vazias, lojas fechadas. Em frente a um dos prédios do caminho acho uma mesinha de madeira junto do lixo. Ponho ela debaixo do braco e sigo em frente, me protegendo do vento e imaginando um banho quente de banheira. Giro a chave do prédio e ao entrar sinto aquele inconfundível cheiro de desinftante barato. Lar doce lar. Três lances de escada e a banheira é toda minha. Lavo corpo e alma, me preparando para o desconhecido dia seguinte.