o homem da linha L ou what happened to punk rock?
1. Meu bairro e' considerado um lugar muito ruim para se viver. Bairro de imigrantes latinos e do leste europeu, sujo e descuidado. Nao me parece um lugar perigoso. Parece uma cidade do terceiro mundo, como um suburbio do Rio, mas com aqueles tradicionais predinhos novaiorquinos. Moro na divisa entre Brooklyn e Queens. Bushwick no Brooklyn, Ridgewood no Queens. O endereco oficial e' Ridgewood, Brooklyn, nunca entendi direito o porque.
2. Pego o metro L, que liga Manhattan aos confins do Brooklyn. E' curioso. Embarcam em Manhattan basicamente dois tipos de pessoas: o primeiro sao pessoas brancas, jovens, bem tratadas, com roupas estilo rock n'roll, calcas apertadas, all-stars, cabelos cool, sorridentes. Americanos, alguns orientais, alguns europeus. Um ou outro negro. O segundo tipo sao pessoas com jeito de pobres, rostos mexicanos, porto-riquenhos, ou pessoas negras, roupas largas, panos amarrados na cabeca, caras de cansados, caras de poucos amigos. Um ou outro polaco, russo, romeno, sei la'. Neste segundo tipo, muitas pessoas acima do peso, comendo porcaria. O metro sai de Manhattan e, nas duas primeiras estacoes do Brooklyn, quse todos os passageiros do primeiro tipo descem. Apelidei essa galera de "Bedford-Lorimers", o nome das duas primeiras estacoes. Nas sete estacoes que faltam ate' chegar em minha casa, restam apenas os passageiros do segundo tipo, o terceiro mundo novaiorquino.
3. O punk rock foi uma referencia importante na minha vida. Eu, Bedford-Lorimer do terceiro mundo, branco latino, jovem e bem tratado, sempre me identifiquei com a transgress‹o furiosa adolescente das guitarras distorcidas, das letras diretas, da negacao do caos urbano pela imersao nele, e ate' mesmo pelo processo auto-destrutivo. Sempre precisei de "no future" pra querer "other future". E New York, centro do imperio, o lugar onde o punk rock nasceu, era uma grande interrogacao para mim.
4. Punk is dead, isso eu ja sabia. Muito mais do que Sao Paulo, aqui punk e' estilo, e' moda estabelecida. Moda de jovens brancos, descolados, tatuados, bem tratados (alguns menos bem-tratados, por causa da vida junkie). Moda de Bedford-Lorimers. Um pouco o meu estilo: se eu n‹o me conhecesse e me visse na linha L, poderia apostar que eu desceria na Lorimer Street. Mas nao me identifiquei com os Bedford-Lorimers, nao tive oportunidade nem fiquei com muita vontade de fazer amizade com os garotos e garotas americanos que gostam de punk rock como eu. Me incomodou, na verdade, o punk de boutique novaiorquino, rico e de nariz empinado, camisas surradas, tenis velhos e cortes de cabelo de 100 dolares. Ainda mais do que me incomoda o punk de boutique paulistano.
5. Assisti a dois documentarios. O primeiro era a historia dos Ramones, os esquisitissimos adolescentes outsiders do Queens, brancos mas nem t‹o ricos e bem tratados, que inventaram o punk. Um pouco antes de eu nascer mandaram aas favas a viagem psicodelica-progressiva-pos-hippie da moda dos garotos brancos e bem tratados dos subœrbios da epoca e, sem saber tocar mais de dois acordes numa guitarra entraram pra hist—ria da mœsica pop. As imagens deles tocando no CBGB's, em 1975, impressionam. La pelas tantas aparece o Johnny Ramone dizendo que pelo final dos anos 70, uns quatro ou cinco discos lancados, eles chegaram aa conclusao que aquilo era um emprego, que era a œnica coisa que eles sabiam fazer na vida. Punk's dead in the US. Hoje a moda novaiorquina e' vestir-se de punk. Nao como os Ramones, porque eles eram realmente esquisit›es e nunca aderiram exatamente ao visual punk. Mas um cabelo verde e uma camiseta dos Ramones pra andar de skate na Bedford Avenue looks cool.
6. O segundo documentario chamava-se "Gentrification". Foi feito por um grupo de jovens que participaram das oficinas de v’deo do Global Action Project. Jovens do tipo dos que moram no meu bairro. Eles mostravam o processo de gentrificacao de bairros de Nova Iorque: por uma serie de razoes pessoas ricas passam a morar em bairros onde antes viviam pessoas pobres. Os alugueis sobem e as pessoas pobres se mudam "um pouco mais para la". O antigo comercio fecha, abrem restaurantes e bares da moda. Bairro pobre vira bairro rico, bem cuidado, cheio de pessoas brancas, jovens, bem tratadas, com roupas estilo rock n'roll, calcas apertadas, all-stars, cabelos cool, sorridentes. Um dos exemplos dados no filme era o de Williamsburg, regiao do Brooklyn proxima a Manhattan. Ali, onde ficam as estacoes Bedford e Lorimer da linha L. O exemplo de bairro nao gentrificado, mas que talvez fosse o proximo da lista... e' Bushwick, minha casa, onde eu, na condicao de sub-Bedford-Lorimer de terceiro mundo, tenho condicao de pagar um aluguel em Nova Iorque. Um bairro que eu detesto, por nao ter area verde, pela falta de zelo das pessoas, pelo barulho infernal mas, acima de tudo, porque tambem nao me reconheco nas pessoas de la. Obviamente nao por nao gostarem de punk rock, mas porque se os sinto terceiro-mundistas como eu, incomoda-me que se orgulhem da bandeira e do sonho americano, esse mesmo sonho vazio dos punks de boutique.
7. Semana passada fui, sozinho, ao meu unico show de rock em Nova Iorque. Sonic Youth e The Yeah Yeah Yeahs. O show era no final da tarde em uma antiga e gigantesca piscina desativada, num parque em... Williamsburg. O publico era 100% Bedford-Lorimers. O Sonic Youth e' uma de minhas bandas favoritas, os caras estao ha mais de 20 anos fazendo suas dissonancias pos-punk sem aderir a modismos, sem pose, sem glamour de popstar. Brancos, ja nao tao jovens, bem tratados, novaiorquinos. Apresentaram seu disco novo, estavam tocando em casa. Um show maravilhoso, ao por-do-sol, dentro daquela piscina em ruinas. Me senti bem de estar em Nova Iorque. Escureceu e os tais Yeah Yeah Yeahs fecharam a noite. Guitarrista poser com camisa brilhante e cabelo cool, DJ com roupa de Formula 1, baterista intelectual e vocalista gostosa com plumas e paetes, voz meio gotica alternada com berros. Gostei dos primeiros dois minutos, depois detestei. Era so' pose, pseudo-atitude. Punk de boutique, um saco.
Gosto das disson‰ncias do rock anglo-sax‹o, mas me enfada o punk de boutique. No meu bairro, gosto da pracinha onde os (her)manos jogam basquete e futebol e eu treino capoeira, gosto da loja de artigos religiosos afro-colombianos na esquina de casa, mas odeio os carroes dos imigrantes neo-ricos cantando pneus e tocando reggaeton no maximo volume. Pouco conheco do universo dos bairros negros no Brooklyn, Bronx, Harlem e Queens, que tive um minimo acesso. Pouco conheco da miscelanea de neo-imigrantes em Astoria. E do spanish Harlem. Tantos guetos...
8. Nao quero uma conclusao. No fundo minha condicao de outsider, nem Bushwick, nem Williamsburg, talvez me desse meios de me comunicar com ambos os universos. Mas nao fiz, nao deu tempo. Falta pouco para eu ir embora, sinto que esses meses foram pouco para poder conhecer as pessoas certas nos diferentes universos novaiorquinos, t‹o radicalmente separados. Na minha solitude novaiorquina, aprendi o que ja sabia, que tambem ha Bushwicks e Williamsburgs na minha vida no Brasil. Punk's dead, mas como diria o old-neo-punk de chinelas Fred 04, "o que era velho no norte se torna novo no sul". It's too early, but it's time to go back home.


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