Conexão NY-AC
De: Pedro
Para: Athaydes
Data: 10/5
trecho
Grande Professor Athaydes!
Como estao as coisas na Grande Experiencia Amazonica? Como eu queria
sentar contigo num caliente fim de tarde portoalegrense pra tomar umas
cervejas e papear sobre essas nossas novas experiencias de vida, tao
diferentes uma da outra e tao ricas.
A Uniflora vai ou nao vai? Politicagem e utopia, como fazer a coisa virar?
Pra mim esses momentos de imersao no capitalismo me fazem ter muito mais
certezas sobre as coisas que eu acredito do que eu tinha antes. As pessoas
acham que nao estou gostando daqui, pelas coisas que escrevo, mas nao e'
exatamente isso. Hoje eu estava andando na Union Square, que ate' agora
acho o lugar mais legal de Nueva York, na feirinha organica que tem aqui
quatro vezes por semana. Andando e pensando que daqui a uns meses eu vou
sentir saudade daquilo la', dos fedidos queijos organicos de cabra, das
tortas de maca~, dos dez mil tipos de flores, dos cogumelos frescos. Da
galera que recolhe o lixo organico pra um projeto de compostagem (passo
la' duas vezes por semana pra deixar o meu). Aqui tem muita musica, muita
gente interessante do mundo inteiro. Acho que e' preciso quebrar o casulo
em que as pessoas se costuraram, ter acesso a elas. Acho que nos
brasileiros somos bons nisso. So' que leva tempo.
Derivei... o que quero dizer e' que essas minhas certezas, fruto de meus
estranhamentos, tem a ver com perceber como que no Brasil temos muito
pouco dinheiro (comparado com aqui), mas temos muitas possibilidades, um
tipo de liberdade que as pessoas aqui nao entendem, pois elas pensam
liberdade como liberdade de consumo (e' isso mesmo, nao e' um cliche', um
preconceito). E a Universidade da Floresta e' um tipo de experimento
social que so' e' possivel ai', com todos os problemas que eventualmente
possa ter. I'm a jungle man, that's what I realized. But I knew it before.
Um grande abraco, hermano. Acho que a gente se ve mais em breve do que a
gente pensa.
P.
____________________________________________________________
De: Athaydes
Para: Pedro
Data: 12/5
trecho
Ola Pedron!
Muito bom saber noticias dai. Saber como você esta lidando com todo este
imperialismo opressor. Mas afinal de contas, o Tio Sam só consegue nos
usurpar quando se é pré disponível. Nem entendo como, mas de alguma forma, o
consumismo, a fobia anti-oriente médio, e etc, não são por assim dizer,
heranças genéticas, de repente ou quase certamente são construções sociais,
diabolicamente bem elaboradas e/ou induzidas. E isto é pra sempre? Que será
agora da natural adulação que todo norte-americano tem por seu presidente (e
por querer ser presidente – será que não é dai a origem de alguns desvios de
conduta? Um garoto se descobre sem vocação nenhuma para ser presidente
enquanto é pressionado por todos os lados a acreditar que é essa a resposta
correta para "o que você vai ser quando crescer?" – Tiros em Columbine...
Sei lá). Agora com o UncleBeastBush com só 30% de aprovação e caindo, será
que uma outra mentalidade critica está se construindo?...sei la, espero que
sim. Não sou exatamente a pessoa que cultiva esperanças na salvação do povo
norte-americano, mas basta, acho, conhecer o Texas ou outro destes estados
mais caretinhas para perde-las todas...hehe.
Nueva Iorque deve ser uma Babel, la nueva babel, o teu relato me lembrou um
filme que vi recentemente com a Shau, - Um Filme Falado, muito lindo. Num
dado momento estão em uma mesa de jantar uma grega, uma francesa, uma
italiana e um norte-americano, todos conversando perfeitamente bem em seus
idiomas locais, e se entendendo. Chega uma professora de história,
portuguesa, e ninguém consegue entender o que ela fala em português (!),
então, como uma boa língua universal, o inglês passa a ser a língua oficial
do jantar. Como capital do mundo, puxa, só como isso já deve ser um barato
conhecer la nueva; aquilo que tu contou de tocar um pandeiro na rua e parar
gente para olhar...se pode fazer qualquer coisa que sempre terá alguém para
assistir, ou pelo contrario, sempre se pode assistir algo que alguém quer
mostrar. Entendo que a chance desta ultima possibilidade ser produtiva é
remota, ou não, haja visto a quantidade e a diversidade de coisas para
assistir, coisas a fazer. Será que é fácil sempre encontrar algo bom para
assistir, para fazer?...assim, sair na rua e isto ser fácil...sem precisar
mergulhar durante uma hora dentro de um Newspaper perscrutando a seção
cultural. Se você viajou de Varig um trecho da viagem pôde ver na Ícaro uma
matéria sobre os segredos da BigApple. Me chamou atenção a tal galeria onde
as gangues (do gangues de Nova York, do Scorsese) freqüentavam, e hoje tem
umas lojas estranhas lá como essa Tin Sun Metaphysics (!) – 5 Doyers Street.
Ou a livraria de mistério e crime na 2468 Broadway – Murder Ink. Legal deve
ser o predinho de tijolos que foi preservado na Lexington Avenue, esquina
com a 60th no meio de um gigantesco edifício, porque uma velhinha se recusou
a vendê-lo, e os projetistas construíram o edifício por cima...diz que ela
ainda mora ali, no segundo andar. Legal mesmo deve ser a tal da Whispering
Gallery, na Grand Central Station, que tem umas abóbadas mágicas: falando em
um canto a outra pessoa ouve nitidamente em outro canto.
Para: Athaydes
Data: 10/5
trecho
Grande Professor Athaydes!
Como estao as coisas na Grande Experiencia Amazonica? Como eu queria
sentar contigo num caliente fim de tarde portoalegrense pra tomar umas
cervejas e papear sobre essas nossas novas experiencias de vida, tao
diferentes uma da outra e tao ricas.
A Uniflora vai ou nao vai? Politicagem e utopia, como fazer a coisa virar?
Pra mim esses momentos de imersao no capitalismo me fazem ter muito mais
certezas sobre as coisas que eu acredito do que eu tinha antes. As pessoas
acham que nao estou gostando daqui, pelas coisas que escrevo, mas nao e'
exatamente isso. Hoje eu estava andando na Union Square, que ate' agora
acho o lugar mais legal de Nueva York, na feirinha organica que tem aqui
quatro vezes por semana. Andando e pensando que daqui a uns meses eu vou
sentir saudade daquilo la', dos fedidos queijos organicos de cabra, das
tortas de maca~, dos dez mil tipos de flores, dos cogumelos frescos. Da
galera que recolhe o lixo organico pra um projeto de compostagem (passo
la' duas vezes por semana pra deixar o meu). Aqui tem muita musica, muita
gente interessante do mundo inteiro. Acho que e' preciso quebrar o casulo
em que as pessoas se costuraram, ter acesso a elas. Acho que nos
brasileiros somos bons nisso. So' que leva tempo.
Derivei... o que quero dizer e' que essas minhas certezas, fruto de meus
estranhamentos, tem a ver com perceber como que no Brasil temos muito
pouco dinheiro (comparado com aqui), mas temos muitas possibilidades, um
tipo de liberdade que as pessoas aqui nao entendem, pois elas pensam
liberdade como liberdade de consumo (e' isso mesmo, nao e' um cliche', um
preconceito). E a Universidade da Floresta e' um tipo de experimento
social que so' e' possivel ai', com todos os problemas que eventualmente
possa ter. I'm a jungle man, that's what I realized. But I knew it before.
Um grande abraco, hermano. Acho que a gente se ve mais em breve do que a
gente pensa.
P.
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De: Athaydes
Para: Pedro
Data: 12/5
trecho
Ola Pedron!
Muito bom saber noticias dai. Saber como você esta lidando com todo este
imperialismo opressor. Mas afinal de contas, o Tio Sam só consegue nos
usurpar quando se é pré disponível. Nem entendo como, mas de alguma forma, o
consumismo, a fobia anti-oriente médio, e etc, não são por assim dizer,
heranças genéticas, de repente ou quase certamente são construções sociais,
diabolicamente bem elaboradas e/ou induzidas. E isto é pra sempre? Que será
agora da natural adulação que todo norte-americano tem por seu presidente (e
por querer ser presidente – será que não é dai a origem de alguns desvios de
conduta? Um garoto se descobre sem vocação nenhuma para ser presidente
enquanto é pressionado por todos os lados a acreditar que é essa a resposta
correta para "o que você vai ser quando crescer?" – Tiros em Columbine...
Sei lá). Agora com o UncleBeastBush com só 30% de aprovação e caindo, será
que uma outra mentalidade critica está se construindo?...sei la, espero que
sim. Não sou exatamente a pessoa que cultiva esperanças na salvação do povo
norte-americano, mas basta, acho, conhecer o Texas ou outro destes estados
mais caretinhas para perde-las todas...hehe.
Nueva Iorque deve ser uma Babel, la nueva babel, o teu relato me lembrou um
filme que vi recentemente com a Shau, - Um Filme Falado, muito lindo. Num
dado momento estão em uma mesa de jantar uma grega, uma francesa, uma
italiana e um norte-americano, todos conversando perfeitamente bem em seus
idiomas locais, e se entendendo. Chega uma professora de história,
portuguesa, e ninguém consegue entender o que ela fala em português (!),
então, como uma boa língua universal, o inglês passa a ser a língua oficial
do jantar. Como capital do mundo, puxa, só como isso já deve ser um barato
conhecer la nueva; aquilo que tu contou de tocar um pandeiro na rua e parar
gente para olhar...se pode fazer qualquer coisa que sempre terá alguém para
assistir, ou pelo contrario, sempre se pode assistir algo que alguém quer
mostrar. Entendo que a chance desta ultima possibilidade ser produtiva é
remota, ou não, haja visto a quantidade e a diversidade de coisas para
assistir, coisas a fazer. Será que é fácil sempre encontrar algo bom para
assistir, para fazer?...assim, sair na rua e isto ser fácil...sem precisar
mergulhar durante uma hora dentro de um Newspaper perscrutando a seção
cultural. Se você viajou de Varig um trecho da viagem pôde ver na Ícaro uma
matéria sobre os segredos da BigApple. Me chamou atenção a tal galeria onde
as gangues (do gangues de Nova York, do Scorsese) freqüentavam, e hoje tem
umas lojas estranhas lá como essa Tin Sun Metaphysics (!) – 5 Doyers Street.
Ou a livraria de mistério e crime na 2468 Broadway – Murder Ink. Legal deve
ser o predinho de tijolos que foi preservado na Lexington Avenue, esquina
com a 60th no meio de um gigantesco edifício, porque uma velhinha se recusou
a vendê-lo, e os projetistas construíram o edifício por cima...diz que ela
ainda mora ali, no segundo andar. Legal mesmo deve ser a tal da Whispering
Gallery, na Grand Central Station, que tem umas abóbadas mágicas: falando em
um canto a outra pessoa ouve nitidamente em outro canto.


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